quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O velho e mar: um pouco das 'Canções Praieias' de Dorival Caymmi

Em poucos estados brasileiros observa-se uma valorização da identidade regional tão forte como na Bahia. É a chamada baianidade, essa mistura de história, cultura e magia, que ganha corpo nos costumes dos baianos e voz lírica, entre outros, nas canções de Dorival Caymmi. E como fã perdidamente apaixonada da obra deste vamos analisar alguns dos discos dele.

Na discografia de Dorival o tema mais recorrente é o mar. O tema está em parte das músicas deste e de quebra no título de alguns álbuns, como seu primeiro, 'Canções praieiras', de 1954, do qual falaremos hoje.


Já na introdução de 'Quem vem pra beira do Mar', primeira faixa do álbum, na calma do cantarolar desse senhor, acompanhado do seu violão, já sentimos essa calma, característica da baianidade que ele traz. Um arrastar nos leva a sonhar junto, com aquela voz grave que parece declamar a música aos nosso ouvidos. já nesta primeira faixa ele entrega que todos seus caminhos sempre terminam no mar, e o resto do disco não o deixa mentir.

Em 'O Bem do Mar' faixa seguinte nos sentimos o próprio pescador que se vê dividido entre seus dois amores: a moça que fica na beira da praia a espera, sua menina, sua esposa, sua namorada. No choro contido da mulher, que se preocupa, mas sabe da necessidade do trabalho perigoso do marido. E, e outro amor deste homem: o próprio mar. Nesse momentos entramos ainda mais nos sentimentos do pescador, em seu fascínio por essa imensidão azul onde, além do sustento,o pescador encontra sua alegria e sua paixão. De novo, Caymmi assovia e cantarola, trazendo a mente aquela sensação praiera mesmo (perdoem o trocadilho, rs).

A terceira faixa do álbum é 'O Mar', que começa com um vislumbre: a beleza de uma onda quebrando na praia. Em seguida, num mais "repentista", ou animado, somos apresentados a Pedro, pescador querido que, como a maioria desses está indo pescar à noite. Depois conhecemos Rosinha de Chica, a mais bela moca do "arraiá", apaixonada por Pedro. E então, sem aviso prévio e sem perder o ritmo, o mar se mostra soberano, e discretamente vamos descobrindo que aquele tinha sido a última vez que Pedro saiu pra pescar. E o amor de Rosinha, de tão forte, parece tê-la feito perder o juízo, pois a mocinha não consegue aceitar a morte do amado, não saindo da praia e lamentando a morte deste. E, para fechar, Caymmi recupera o grave e relembra que ainda assim o mar permanece "bonito".

Em 'Pescaria' (ou 'Canoeiro') também lembrando um repente, lá vamos nós com esse pescador em seu oficio, detalhadamente explicado. Desde o momento de jogar a rede e a forma que se trabalha esta até a alegria do peixe, acompanha de um louvor pela graça da pescaria.

Foto por Bernardo de Menezes, Jornal A Tarde
'É Doce Morrer no Mar', foi a primeira canção de Caymmi que ouvi. Conduzida numa maestria, numa serenidade, que nada se pode fazer além de parar, ouvir e tentar imaginar as "ondas verdes do mar", descritas no começo da letra. Letra essa que nos lembra muito a história de Pedro e Rosinha de Chica. Aqui não temos nomes, mas temos aviso. E com o título como primeiro verso, e a beleza destas ondas, vemos o saveiro voltar sozinho na "noite que ele não veio". E então vem o contraste: a beleza, que também perigosa para queles que dela tiram o sustento. O nos leva apensar até mesmo em outras belezas. E no dia a dia a dia daqueles as veem a todo momento. (falo por experiência, moro perto de um ponto turístico de Salvador). Mas o que chama atenção aqui é o "doce" do título, que, para o ouvinte menos atento parece ter sido colocado por ironia, ou que sabe mesmo por erro. Mas será? Sera que nesse amor que se tem pelo mar e na beleza beleza deste  a "maldade" não se perdoa? Quem sou eu pra julgar, se nem Caymmi se atreveu...

E mais uma vez Caymmi insere o ouvinte na vida de um pescador. Desta vez Chico Ferreira e Bento, de 'A jangada voltou só'. Como uma especie de epitáfio do pescador, a canção mostra o dia dia dia e alguns atos da cultura do povoado, possivelmente em Jaguaribe ou proximidades.
 

E se o mar era o amor de Caymmi esse mar era da Bahia. Em 'A Lenda do Abaeté'. Existe a lenda do batucajé, que assusta tanto adultos quando crianças na região. Situação divertidamente descrita por Caymmi.
 
A ultima canção é 'Saudade de Itapuã', onde fica escancarado o amor deste compositor por esta Bahia de Todos os Santos, a Terra da Felicidade (sendo totalmente imparcial, haha).


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